Alegria como mau presságio

O ano de 2015 estava sendo mágico para nós – eu e meu marido. Profissionalmente as coisas estavam excelentes, movimento cada vez maior e atração de pessoas que realmente queríamos; começamos a correr e participar de grandes provas; ótimas notícias eram frequentes na vida pessoal; e tudo estava maravilhoso. Vini disse que sentia medo de algo vir a acontecer “está tudo tão bom que parece não ser normal” e foi aí que, em agosto, sem aviso prévio, meu sogro ficou gravemente doente levando a meses de cuidados, incertezas e angústia.

Eu lembro do quão mágico 2015 foi e, claro, lembro de tudo que aconteceu com meu sogro. Mas a parte do medo do meu marido (em acontecer algo), eu não lembrava, ele me contou após eu compartilhar um trecho do livro “A coragem de ser imperfeito”.

Nesse livro, a autora fala da “alegria como mau presságio”, aquele temor repentino e paradoxal que reprime qualquer felicidade momentânea (sim, você não é o único que sente isso).

“Em nossa cultura de profunda escassez – de nunca nos sentirmos seguros ou certos o bastante -, a alegria parece uma farsa. Nós acordamos pela manhã e pensamos: ‘O trabalho vai bem, todos na família estão com saúde, nenhuma grande crise está acontecendo, a casa ainda está de pé, eu estou me sentindo bem. Que droga. Isso é ruim. Muito ruim. Algum desastre deve estar à espreita, só esperando para acontecer'”. (Livro – A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown).

Ou você, que tem sua empresa, começa a lucrar mais e logo pensa: “muito bom para ser verdade. O que será que vai acontecer nos próximos meses?”, ou a mulher grávida que imagina: “ter um filho é a realização de um sonho, não deve ser assim tão fácil, devo me preparar para algo ruim após o nascimento”, ou ao sair de férias, você já começa a imaginar tudo de errado que pode acontecer…

Geralmente, quando as pessoas estão alegres – vendo os filhos dormirem, amando seus companheiros, em remissão de algum câncer, quando engravidam, são promovidas ou passam alguns dias de férias ótimas – se sentem mais vulneráveis. E essa vulnerabilidade abre espaço para o medo de que aquele momento tão bom acabe. E aí a mente pensa que é melhor “se preparar para o pior” e, assim, o momento presente não é aproveitado e a alegria, por fim, parece algo difícil de ser conquistado.

Isso gera uma fuga da vulnerabilidade, mas, como consequência, não se sente mais alegria.

“Nossa cultura fortalece esse ensaio da desgraça: a maioria de nós possui um estoque de imagens terríveis que pode sacar no instante em que não conseguimos lidar com a vulnerabilidade. […] Nós acumulamos um bom estoque de imagens mórbidas de que precisamos para alimentar o mecanismo da alegria como mau presságio…”. (Livro – A coragem de ser imperfeito, de Brené Brown). Assistimos aos noticiários, filmes e seriados que estão cheios de cenas violentas, e isso contribui para nossa mente fantasiar os piores desastres.

Como viver a alegria sem medo de que algo ruim aconteça? 

Pratique a gratidão. Parece clichê, não é mesmo? Mas é dado de pesquisa científica. A gratidão, na pesquisa da autora Brené Brown, apareceu como um antídoto para a alegria como mau presságio.

A alegria está nos momentos comuns – não espere por algo extraordinário. Pessoas que passaram por momentos difíceis depois acabam se lembrando da felicidade em tomar café da manhã com alguém querido, receber uma mensagem de texto ou ter uma tarde de folga. Nos momentos singelos é que estão momentos inesquecíveis.

Seja grato pelo que tem. Pequenas coisas (a cama para dormir, a comida no prato, seus pais estarem vivos ou suas pernas se movimentarem). Não considere nada banal – celebre as pequenas conquistas, bens materiais, hábitos ou pessoas.

Não desperdice a alegria se preparando para algo ruim que pode ou não acontecer. É como eu digo aos meus interagentes: pés no cão, aqui e agora, momento presente – aproveite!

Viva a alegria com gratidão e, assim, sinta mais alegria em sua vida sem a insegurança do momento acabar, apenas sendo feliz por estar vivendo algo tão precioso.